Um dia de webwriter
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Autora: Ana Amélia Erthal
Para mudar um pouco o tom dos artigos e difundir ainda mais informações sobre nosso mercado, conversei com dois profissionais, um de São Paulo, outro do Rio de Janeiro, para saber mais sobre o dia-a-dia, as aventuras e agruras de um webwriter.. Cada um tem suas experiências e opinões, mas o fundamento é igual para os dois, principalmente num ponto: a leitura ainda é a chave para a formação de um redator de web.
Marcelo Ferraz é publicitário e atualmente escreve para o blog da Selulloid AG e em redes sociais em nome da BFGoodrich. Ele acompanha o mercado desde o tempo em que os blogs funcionavam como um diário, uma época em que se buscava resgatar a individualidade perdida com a era da cultura de massa. Léo Paiva é jornalista e trabalha como redator para a intranet da Coca-Cola Brasil, produzindo notícias e organizando o conteúdo para ser difundido para o público interno via ambiente digital. Ele também mantém o seu blog que é sucesso no Brasil e em Portugal, desde 2003. Sem querer, Léo entrou para a história da internet, ao criar, em 1997, uma das primeiras revistas acadêmicas digitais, a "Utopia", que ainda é relembrada em eventos e palestras.
Confira abaixo o que eles dizem sobre o mercado, sobre a língua portuguesa e as recomendações para quem quer seguir carreira.
- Você acha que escrever para o meio digital é muito diferente que escrever para o meio impresso?
Marcelo: Acho que sim. Na internet, se as pessoas ficam 30 segundos em uma página, já é muito. Então eu acho que o texto tem que ser mais curto e direto. Além disso, também acho que a linguagem pode ser mais informal em meio digital.
Léo: Diria que é a "formatação" do texto. Graças aos recursos interativos dele como hiperlinks, podemos nos dar ao luxo de escrever menos informações em uma massa de texto, linkando uma palavra ou expressão inteira para outra página que aborde o assunto que aquela palavra ou expressão está mencionando - na mídia impressa você precisaria, no mínimo, escrever um box sobre aquele assunto paralelo e tentar encaixá-lo na página. A possibilidade de construir textos modulares, interagir com outros recursos como gráficos, vídeos, áudios e tudo mais que a internet pode oferecer é simplesmente delicioso, principalmente porque faz com você se posicione não apenas como um "webescritor", mas como um produtor de conteúdo - e, como produtor de conteúdo, deve pensar em como passar aquilo que tem a dizer, não apenas em texto, mas gerando uma interação dele com informações em forma de vídeo, áudio, gráficos...
- Você acha que a linguagem utilizada na web deprecia a língua portuguesa?
Marcelo: Eu acho que, se a mensagem está sendo passada, e se as pessoas estão entendendo, a comunicação não está sendo prejudicada. Pra mim, é tudo uma questão de adaptação ao meio e ao público. Até pela questão da web ser mais dinâmica, e a linguagem ser mais direta, as pessoas abreviam mais pra falar. Mas não é porque eu abrevio numa conversa de MSN, que eu posso fazer isso em qualquer lugar.
Léo: Se você quer dizer o modo como as pessoas conversam nos chats com abreviações como vc, tb, vamos tc, e etc., eu diria que estamos nos equilibrando numa corda muito fina. Reconheço que, para conversar em tempo real nos chats ou MSN, abreviações como essas realmente agilizam e dinamizam o "pingue-pongue", mas tenho conversado com amigas professoras que sofrem quando seus alunos levam essa linguagem para a vida real e escrevem assim também em provas, redações tudo o mais.
- Como você acredita que o profissional deve se preparar para ser um webwriter?
Marcelo: Primeiro, tem que gostar de escrever. Acho que ele pode fazer cursos, e ler muito também. Existem muitos livros sobre o assunto (recomendo o "Blog Corporativo", do Fábio Cipriani). E com certeza tem que ser muito curioso também. Tem que estar ligado às novidades o tempo todo. O mercado de webwriting está em expansão, com inúmeras possibilidades. Hoje, as empresas estão começando a perceber que não adianta investir só em meios tradicionais. Cada vez mais elas investem em blogs corporativos, wikis, podcasts, videocasts, MSN, atendimento online, fóruns e redes sociais...
Léo: Ler! Ler de tudo, não apenas livros técnicos de redação ou webwriting, mas livros, contos, revistas, jornais, quadrinhos, bula de remédio... Consuma também outras mídias, assista televisão, ouça rádio, preste atenção no papo de estranhos dentro do ônibus... Absorva linguagens, tente entender o que chega à sua mente na forma como ela está sendo enviada, sem tentar "traduzir".
- Que curiosidades, dificuldades ou aventuras você já passou e pode contar?
Marcelo: Ah! Tem um ótimo que ajuda quem está começando. Era um dos meus primeiros jobs, na primeira agência que eu trabalhei. O diretor de arte que estava fazendo a arte do site pediu para eu escrever qualquer coisa, só pra marcar o layout. Eu comecei a escrever um monte de besteira sem sentido (afinal, ele falou pra eu escrever qualquer coisa). Resultado: ele nem leu o que eu escrevi e mandou pro Diretor de Criação aprovar... e ele foi pra reunião com o cliente! Ele só foi reparar no texto no meio da reunião. A sorte é que ele era muito tranqüilo, e mais sorte ainda é que o cliente não leu o texto. Depois ele voltou rindo, e isso virou uma piada interna. Mas é claro que depois ele me chamou e conversamos numa boa. Depois disso, eu nunca mais brinquei com texto pra marcar layout!
Léo: Eu trabalhava para um portal de voz com entrevistas com famosos. Quando saiu o documentário "Fábio Fabuloso" sobre o surfista Fábio Gouveia, consegui marcar uma entrevista por telefone. Meu telefone, na época, tinha um fio onde se ligava um gravador digital e, com ele, gravava o áudio que iria ao ar. Pois faltando cinco minutos para a hora combinada de ligar para o cara, meu telefone simplesmente parou de funcionar! Corrí para outra linha, tentei conectar o gravador nela para realizar a entrevista, liguei para o Fábio e rendeu um papo delicioso, cheio de curiosidades sobre o filme e sobre o cara que encantaria a todos - enfim, uma entrevista perfeita! Qual não foi minha surpresa ao ver que, na pressa, não havia conectado o gravador na linha correta... Uma entrevista de conteúdo ótimo, um bate-papo descontraído PERDIDOS! E agora?? Eu tinha que editar o áudio daquela entrevista naquele dia mesmo para que estivesse no ar no dia seguinte! Liguei pro Fábio de novo, pedi mil desculpas pelo incidente e pedi para regravar a entrevista - ele disse que tudo bem, mas estava de saída para o aeroporto e só ia desembarcar não-me-lembro-onde lá pelas 9 da noite. Foi o tempo que tive para resolver o problema da minha linha telefônica original e, às 9 da noite, o próprio Fábio me liga do orelhão do aeroporto, logo após desembarcar. Foi aquela situação de "é agora ou nunca" e ele foi muito legal em repetir a entrevista toda dalí, do orelhão do aeroporto, tarde da noite. O resto do sacrifício foi meu, de ter que tratar o áudio para diminuir o ruído de rua por trás da voz dele e preparar tudo que envolvia no processo de atualização do portal de voz pela madrugada a dentro... Mesmo refeita aos trancos e barrancos, a entrevista continuou ótima e rendeu um bom número de ouvintes curiosos em saber mais sobre o surfista depois de terem visto o filme.
- O que você recomenda para aqueles que gostariam de ingressar na carreira?
Marcelo: Tem que ser muito curioso, tem que estar atento a tudo o que acontece. Minha sugestão: tenham um agregador de feeds e um delicious. Gostou de um blog? Adiciona no seu agregador. Gostou de um artigo/site/notícia? Adiciona no delicious.
Léo: O negócio é praticar. Crie um blog sem pretensões e escreva, sem parar, faça disso um exercício diário. Reescreva notícias, desenvolva sua crítica a respeito de determinados assuntos, ponha pra fora aquilo que está na sua cabeça, tente dar forma às suas impressões mentais. Mostre seus textos para terceiros e avalie / aceite as críticas que receberá, pois no fim das contas, você não produzirá conteúdo para você, mas para as outras pessoas. Com isso, refine e descubra sua linha de raciocínio, seu estilo.
Up the webwriters!
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